Somos amantes mas sinto que sou só uma aventura e fico perdida se há chance de algo mais. Como saber como ele me vê?Facebook Twitter
Meninas, o e-mail da semana:
“Pois é, João, caí na tentação. Estou saindo há alguns meses com um cara casado. Gostoso demais, gentil demais, e o que era pra ser sexo puramente casual, é claro que acabou se transformando, de ambas as partes, em um envolvimento tímido e contido, mas um envolvimento. Porque acho que nós, mulheres, fazemos amor sim. Se quiser chamar de sexo com entrega, ok, ou qualquer outra denominação, mas o fato é que só deixei essa situação se estender porque tive um mínimo de envolvimento que me permitiu me entregar. E aí a gente começa a esperar pelo telefonema que nem sempre vem. E a gente do sexo feminino tem uma coisa meio inexplicável de querer deixar uma marca, saca?
Eu tenho total consciência de que sou apenas uma foda para ele se distrair um pouco do tédio do casamento, mas mesmo assim quero pensar que sou uma bela de uma foda, a melhor que ele teve, a número 1 no quesito tesão incontrolável.
Mas enfim, ouvindo meu coração (mais uma característica tipicamente feminina), cheguei à conclusão de que a marca que vou deixar nele é a minha abdicação. Vou desistir dele. Cair fora. Mesmo morrendo de vontade de ter um caso com ele por um tempo que nem sei, resolvi que tenho que fazer a coisa certa. Sem culpa, que fique claro. Sem neuras. Mas com a certeza de que ele deixou de me ligar não porque não teve vontade, mas porque eu o dispensei.
Então chegamos à pergunta que não quer calar: ele realmente vai sentir alguma coisa especial em mim ou vai simplesmente passar para a próxima, como se eu nunca tivesse existido na vida dele?”
UMA RESPOSTA
Moças, a leitora quer saber se deixará marca, arranhão ou apenas a brisa de uma lembrança a mais.
Querem saber? Eu acho que todas essas coisas vão acontecer.
Que estranho é gostar de alguém. Percebam na cartinha da leitora uma cápsula daquilo que gosto de dizer: no fim, no fim, somos todos protagonistas de um filme coletivo e iraniano. E seis bilhões de protagonistas coletivos e iranianos são seis bilhões de coadjuvantes.
Acontece que a gente não gosta muito de observar isso. Há em todo mundo um não sei o que de Brad e de Angelina. Não aceitamos um papel lateral. Vemos em qualquer um diante de nós uma plateia. Somos nada menos do que o centro de um universo único, fugaz e pequeno. Sendo assim, brigamos de foice com o mundo, como se diante da solidão infinita que é viver quiséssemos gritar um pouco mais alto que o sujeito ao lado. Como se nessa tentativa de chamar atenção residisse o segredo de ser mais importante que o mundo, que o outro.
O amor, meninas, acaba sendo assim. Uma luta para ter o outro. Para dominar o outro. Para entender e encapsular o outro. Para que ele seja aquilo que queremos. Para que ele seja a nossa plateia especial.
E já que ninguém liga muito praquilo que não é espelho, o amor acaba surgindo como o barbante roidíssimo de esperança de ter olhos que não os nossos na gente. Percebem: o amor nos dá uma réstia de ilusão de que somos especiais, de que nesse mar de protagonismos, alguém nos reconheceu.
E é assim, desse jeito, dessa forma, que fazemos tudo errado.
Em primeiro lugar, a leitora acima sabe onde se enfiou e o amante acima sabe também onde se enfiou.
É um jogo jogado, um jogo que acontece, sem julgamentos. É o que é.
Mas percebam como por trás da lucidez da nossa amiga aí do alto há um tipo de dor, de grito, de vontade de ser algo além de si mesma. Uma vontade de ter um pouquinho a mais.
A condição de qualquer relacionamento é a terna insatisfação.
Falta sempre algo ao amor.
Essa falta é seu combustível. E sua maldição.
Eis o nosso destino, meninas: queremos ser lembrados, queremos deixar marca, sabendo que nós mesmos não permitimos que outros sejam protagonista em nossa vida. Percebem, percebem? Digam que percebem…
Não, né?
Mas então me sigam aqui: a dúvida cruel da leitora é tentar entender aquilo que não dá pra entender nem saber.
Posso dizer uma coisa? Isto, ó: todo mundo, do pipoqueiro ao grande amor, deixa marcas se encontram com a gente. O mundo, a nossa vida, tudo é a soma dos encontros que temos.Porque é essa nossa vontade de plateia que faz com que os esbarrões mais mínimos tenham uma marca de confirmar nossa existência. Ao falar com outra pessoa, ao receber atenção de alguém, ao trocar um beijinho dos mais serelepes, essa pessoa adiante vira testemunha ocular da nossa grande e minúscula história. É como se mesmo na dor, como se mesmo numa traição, o fato de aquela pessoa nos ter dado um fiapo de olhar além do que seria o banal, é como se isso fosse um sinal de que deixaremos algo quando partirmos desta pra uma outra.
Olha, vocês me desculpem. Peguei um desvio mental e fui até o Japão.
Vamos concluir:
Amar alguém é o nosso calcanhar de Aquiles, aquele rapaz louro que preferiu morrer cedo em glória a apagar sem deixar rastro.
Meninas, todo sujeito, mesmo o mais canalha, mesmo o mais torpe, por um pingo de momento e pelo resto da vida, ele leva consigo aquilo que passou por ele. Quero dizer que até as histórias mais desastradas deixam tatuagens no coração de quem as viveu.
O importante, assim, não é tanto mesurar o tamanho da lembrança que você desenhou naqueles que passaram por você, mas entender que isso não importa. No fim, não importa. Não importa.
Viver esperando deixar um talho, um sinal quando as coisas não forem mais presentes é não viver justamente o presente.
A leitora acima quer saber sinceramente se o sujeito a leva a sério.
Eu pergunto sinceramente também: tem mesmo como saber disso?
E ainda sincero, pergunto mais: adianta saber disso?
Sinceramente, o quanto ele vai lembrar e como ele vai lembrar de você não importa tanto desde que o que vocês tenham agora, errado ou não, amante ou não, seja especial, seja franco, seja bom.
Se não é bom, se a vida a dois é uma vida voltada à esperança de que um dia as coisas serão diferentes, faça do presente o futuro: encerre essa trajetória a dois. Não viva em função daquilo que o outro pensa de você. Não tente moldar aquilo que o outro pensa de você. O mundo é enorme. E no mundo cabe você, e você, e você, e você…
O mudo é enorme. O mundo é enorme. O mundo é enorme.
Mas a vida é um bocado curta.
E eis a graça dessa soma: seis bilhões de solidões são seis bilhões de proximidades. São seis bilhões de possibilidades. São seis bilhões de vidas correndo pra, um dia, virarem seis bilhões de lembranças meio esquecidas.
Seis bilhões de pessoas são seis bilhões de possibilidades.
São seis bilhões de novas chances.
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